Tilápia:
O Vigor do Híbrido

Por José Patrocínio Lopes, Chefe da Estação de Piscicultura da CHESF em Paulo Afonso - BA


No final da década de 70, o entusiasmo que emanava do Nordeste contagiava os interessados na piscicultura de todo o país. De lá partiam os primeiros e promissores resultados com a hibridação de tilápias, uma técnica que prometia revolucionar a produção de pescados no Brasil. Já em 1979, segundo o DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra a Seca, foram produzidas comercialmente 60 toneladas de tilápias híbridas, numa clara demonstração que para o caminho escolhido, não havia retorno. Mas, os anos 80 chegaram trazendo na bagagem toda a sorte de dificuldades, fruto, principalmente, do desconhecimento dos manejos adequados para esta prática. A necessidade de um número grande de alevinos esbarrou na falta de instalações próprias, de mão de obra especializada e de conhecimentos teóricos, somado às dificuldades para que fossem mantidas puras as linhagens parentais. Os ânimos foram esvaziados e as tilápias jogadas para o rol dos peixes mais desprezados no país, até porquê passaram a se reproduzir aqui e ali, sem controle, tornando-se uma praga em nossas águas.

Passadas quase duas décadas, sabe-se que o potencial da hibridação de tilápias foi, e ainda é, muito pouco explorado pela piscicultura comercial. Hoje, graças ao empenho e dedicação de um dos pioneiros nesse trabalho, o tecnólogo e especialista em aqüicultura José do Patrocínio Lopes, podemos ver antigos problemas solucionados e híbridos de qualidade sendo produzidos, desta feita, dentro dos melhores padrões de manejo. Graças a Patrocínio, atual chefe da Estação de Piscicultura da CHESF – Cia. Hidrelétrica do São Francisco, em Paulo Afonso-BA, o país dispõe ainda hoje de linhagens puras das tilápias de Zanzibar Oreochromis hornorum e do Nilo Oreochromis niloticus, fruto de um trabalho criterioso realizado diariamente desde o dia 30 de abril de 1984, por quem nunca teve dúvidas a respeito do potencial e do vigor desse híbrido.

 

O Híbrido

Dos cruzamentos entre diferentes espécies de tilápias que resultam em proles 100% machos, o mais famoso é, sem dúvida, o resultante entre o macho da tilápia de Zanzibar O. hornorum e a fêmea de tilápia do Nilo O. niloticus, com a condição de que ambas as espécies utilizadas pertençam a linhagens puras. Os híbridos obtidos dessa forma, oferecem ao piscicultor as vantagens de um crescimento e ganho de peso mais rápidos, aumento da resistência à doenças, aumento do rendimento de carne e maior eficiência na conversão alimentar. Ademais, esse método proporciona a vantagem de se obter indivíduos 100% machos sem que seja necessário o uso de hormônios para reversão sexual, eliminando o problema maior no cultivo comercial de tilápias, que é a reprodução precoce durante a engorda, que traz como conseqüência a superpopulação e o nanismo dos peixes. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, o cruzamento dessas duas espécies não é tão fácil, já que o convívio entre elas está longe de ser harmonioso.

Características
Tilápia do Nilo
Tilápia de Zanzibar
Híbrido
Formato externo do corpo
Arredondado
Longo
Arredondado
Nadadeira caudal
Com estrias verticais
Totalmente lisa
Com estrias verticais
Coloração
Cinza
Preto Urânio
Cinza escuro
Focinho
Curto
Longo
Longo
Olhos
Claros
Pigmentados (pretos)
Claros
Boca
Normal
Maxilar inferior projetado
Normal
Nadadeiras peitorais
Transparentes
Escuras
Escuras
Forma da cauda
Reta
Arredondada
Arredondada
Perfil da cabeça
Ligeiramente convexo
Reto
Ligeiramente convexo

 

Falta de afinidade

Os primeiros trabalhos para obtenção de tilápias híbridas foram realizados nas estações de piscicultura do DNOCS, órgão também responsável pela importação das linhagens puras desses peixes trazidas diretamente da África.

Os manejos iniciais preconizavam a simples união do mesmo número de machos de Zanzibar e fêmeas do Nilo em viveiros escavados, seguido de sucessivas coletas de larvas, que eram transferidas e criadas separadamente. Acreditava-se na ocasião, que a baixa produção de alevinos obtida era decorrente do canibalismo dos animais maiores sobre os menores, daí a necessidade de coletá-los e separá-los para que crescessem de forma igual. Mas esse método, chamado de “coleta sucessiva de larvas”, não logrou os resultados esperados, pois os viveiros no Nordeste, por estarem sujeitos a grande insolação, logo ficavam cheios de algas que dificultavam as tão importantes coletas sucessivas.

Fêmea de tilápia do Nilo ou nilótica (Oreochromis niloticus)

 

Macho de tilápia do Zanzibar(Oreochromis hornorum)

 

Desestimulados, os técnicos do DNOCS abandonaram essa técnica e partiram para o que acreditavam ser a solução para o problema. Numa segunda tentativa de reprodução, colocaram casais (machos de Zanzibar e fêmeas do Nilo) em pequenos tanques de 3 m2 e 0,45 cm de profundidade. Entretanto, a surpresa foi grande quando em menos de uma semana, os machos matavam as fêmeas, demonstrando na prática o que foi chamado de “falta de afinidade entre as duas espécies”. Falhou também a tentativa de extrair os pré-maxilares dos machos, uma técnica chinesa para que os peixes pudessem ficar mais dóceis em ambientes pequenos. Entretanto, logo após a cicatrização atacavam e matavam as fêmeas, ou eram mortos por estas se eram menores ou continuassem fragilizados com a extração dos pré-maxilares. Dessa experiência concluiu-se que o problema da falta de afinidade não era tão somente da Zanzibar para com a Nilótica, mas também desta para com a Zanzibar.

Mais tentativas

O ano já era 1982 e os resultados estavam longe de serem alcançados. Restava porém, mais uma tentativa para viabilizar os cruzamentos entres as duas espécies. Para estimular a formação de casais, os machos de Zanzibar e as fêmeas Nilóticas foram desta vez colocados em um tanque especial utilizado para o cruzamento de apaiaris, também conhecido como “tanque de segregação de casais de apaiaris” (foto). Consiste em um tanque de concreto, cercado de vários pequenos tanques que são utilizados por casais, onde os machos escolheram suas fêmeas.

 

A medida que os casais de tilápias se formavam, eram retirados e colocados em outros tanques de 3 m2 para que se reproduzissem. Acreditava-se que os casais formados dessa maneira tinham afinidades, já que o macho e a fêmea haviam se escolhido um ao outro e se isolaram nos compartimentos laterais do tanque.

Mais uma vez a decepção. Os machos mataram todas as fêmeas na primeira semana de convívio. O golpe dessa vez foi profundo ferindo gravemente a equipe de pesquisadores do DNOCS, fazendo-os desistir da produção desses híbridos nos anos seguintes.

Afinidade de larvas

Um membro da equipe, entretanto, não desistiu de buscar manejos que permitissem a produção em escala de alevinos desses híbridos. Ao se mudar para a Estação de Piscicultura da CHESF, em Paulo Afonso-BA em abril de 1984, José do Patrocínio Lopes levou consigo 80 alevinos de ambas as espécies, por ele selecionados segundo um rigoroso critério e, desde então, cuida diariamente desses animais, manejando-os de modo a não permitir cruzamentos indesejados que possam por em risco a pureza das linhagens.

Faltava porém encontrar uma maneira de criar a tal afinidade entre as espécies para que macho e fêmea pudessem habitar um ambiente pequeno e de fácil controle, sem que um matasse ao outro. Uma conversa com um antigo professor no entanto, ajudou Patrocínio a buscar o caminho da “afinidade de larvas”, baseado em procedimento similar empregado para canários.

O processo consiste na reprodução, em separado, de ambas as espécies de tilápia e, em seguida, a criação conjunta dessas larvas. A partir do momento em que atingem 20 gramas, esses alevinos passam a ser sexados mensalmente para que sejam descartados os machos de nilótica e as fêmeas da tilápia de Zanzibar, indesejáveis no processo de hibridação.

Após seis meses, os peixes que cresceram juntos desde larvas (machos de Zanzibar e fêmeas de nilótica), são agora capazes de formar casais, sem que um mate o outro, mesmo se colocados em tanques de pequeno volume (3 m2), viabilizando dessa forma todo o processo de hibridação.

Graças a técnica de afinidade de larvas desenvolvida por José Patrocínio Lopes, desde 1994 a Estação da CHESF em Paulo Afonso vem produzindo híbridos continuadamente e o aperfeiçoamento desta técnica vem permitindo aproveitamentos cada vez maiores, beneficiando desta forma, um número crescente de piscicultores.

Protocolo

Para ilustrar melhor o que foi descrito, segue abaixo um protocolo de manejo utilizado na Estação de Paulo Afonso para a obtenção de 35.000 alevinos/mês.

Etapa 1 Tanques de pureza de linhagem

Utilizando-se dois tanques de alvenaria de 3,0 x 10,0 metros, suspensos (telados e cobertos) faz-se a manutenção permanente de 30 casais de O. niloticus e de 30 casais de O. hornorum. Em intervalos de 3 a 4 meses, seleciona-se os melhores animais para assegurar a manutenção da prole “limpa” ao mesmo tempo em que se aproveita para se abastecer de larvas quando necessário.

José Patrocínio Lopes com uma tilápia híbrida

Etapa 2 Viveiros de afinidade de larvas

São utilizados viveiros (no caso, cinco) com tamanho de 40 a 50 m2 e capacidade para acasalar 300 larvas, sendo 150 de cada espécie. Previamente à introdução das larvas, os viveiros são rigorosamente desinfetados. Em seguida, depois de um intervalo inicial de 30 a 40 dias, com os alevinos em torno de 20-30 gramas, faz-se a primeira sexagem, com a finalidade de descarte dos machos de tilápia do Nilo e de fêmeas de Zamzibar. Este processo é contínuo, mês a mês, até eliminar por completo os animais indesejados, o que fatalmente termina ocorrendo até, no máximo, o sexto mês.

Etapa 3 Viveiros de acasalamento (hibridação)

Utilizando-se cinco viveiros de 2.000 a 2.400 m2 estocados com 40 casais entre 60 e 75 dias de acasalamento, obter-se-a, aproximadamente 35.000 alevinos/mês, suficiente para estocar 3,5 hectares de viveiros em regime de cultivo semi-intensivo, nos moldes praticados na região de Paulo Afonso e, com a garantia de que mesmo cultivando-se esses peixes por até nove meses (800 a 1000 gramas), eles não desovarão.

Além disso, recomenda-se como essenciais os seguintes cuidados quando da adoção da técnica de afinidade de larvas:

 · exercer rigoroso controle de material (redes, baldes ...);

· ao transportar os peixes, principalmente O. hornorum verificar se não estão sendo conduzidos alevinos na boca;

· realizar períodos de acasalamento máximo de 75 dias para evitar retrocruzamento (híbrido com a própria mãe- tilápia do Nilo).

Sydney - WAS ‘99

Os resultados deste trabalho de José Patrocinio Lopes foram apresentados em co-autoria com Antonio Lisboa N. Silva e Ida V. T. Barros, no último encontro da World Aquaculture Society realizado em Sydney - Austrália.