Panga chega ao Brasil
com jeito de quem veio para ficar

Setor aquícola se mostra preocupado, mas não sabe como deve se comportar

Por: Jomar Carvalho Filho
jomar@panoramadaaquicultura.com.br



O peixe pangasius vietnamita já chegou às gôndolas dos supermercados brasileiros. Muita gente já esperava por isso, mas ainda assim a notícia pegou todo o setor aquícola de surpresa. Na Lista de Discussão da Panorama da AQÜICULTURA (Panorama-L), em mensagem enviada dia 20 de outubro, Osmar Tomazelli Jr., de Chapecó (SC) disse que comprou o “panga” (nome que está sendo comercializado) no supermercado Brasão, vendido a R$ 12,98 o quilo. O produto veio do Vietnã, importado pela Leardini de Santa Catarina, e está sendo vendido em embalagem contendo três filés, sem pele e sem espinhas. Ainda segundo Tomazelli, “a carne é muito saborosa e, fazendo uma comparação com a tilápia, tem mais gordura, e não tem sabor estranho (off-flavor)”.

As reações quanto os efeitos da entrada do peixe no Brasil foram as mais diferentes. Alex Augusto Gonçalves, professor da UFERSA, postou mensagem procurando minimizar o fato, dizendo que a comercialização do pangasius tem o mesmo objetivo das demais espécies que vêm de fora (como o salmão, por exemplo), ou seja, abastecer o consumidor com um pescado de qualidade sensorial. Segundo Alex, o pangasius tem uma característica sensorial muito interessante e vai cativar o consumidor, desde que não traga consigo a fraude econômica. “Não vejo nenhum motivo para tanta preocupação, e sim, uma oportunidade para pensarmos em diversificar nossos produtos com espécies brasileiras, e não ficar apenas no “feijão com arroz”, ou melhor, tilápia, sem desmerecer essa espécie, que pra mim é espetacular”, disse. 

Outra mensagem enviada por Wagner Camis informava que alguns distribuidores na capital paulista já estavam vendendo o panga para sushis a R$ 20,00 o quilo, o mesmo preço do robalo. O tema motivou Sergio Tamassia, da Epagri (SC), que disponibilizou para a Lista da Panorama uma pesquisa que fez junto à Secretaria de Comércio Exterior. O Brasil, que nos últimos anos não havia importado pescado do Vietnã, exportou, de janeiro a setembro deste ano, 1.285 toneladas avaliadas em 2.43 milhões de dólares. Pode parecer muito, e é. Mas nada que se compare com as 89.482 toneladas importadas pela Espanha nos oito primeiros meses desse ano, segundo notícia enviada por Luciano Amorin, extraída do site Aquahoy. Segundo a nota, um estudo realizado pelo professor da Universidade de Cantabria, José Fernández Polanco, mostrou que nos últimos anos as taxas de crescimento do consumo de panga na Espanha foram de 9.000%, algo qualificado como “sem precedentes”. Este fenômeno, segundo o professor, é explicado por uma teoria chamada “assimetria da informação” que diz que quanto menos conhecido é o produto, mais atração ele exerce sobre as pessoas. “Não saber o que é o panga, mas saber apenas que é parecido com o “rapante” ou o linguado, faz com que o comprem” disse o especialista.

O gerente da Leardini, Uilians Ruivo, que também participa da Lista de Discussão da Panorama da AQÜICULTURA, postou mensagem dizendo que a Leardini, apesar de possuir uma frota de embarcações, importa pescado de vários países, o que faz com que o pescado importado represente mais de 50% das vendas. Segundo Ruivo, a Leardini foi buscar no Vietnã novos fornecedores de produtos e “lá encontrou um excelente parque industrial instalado, assemelhado a “um hospital”, tal eram os cuidados com higiene e Boas Práticas de Fabricação”. O Vietnã exporta seus produtos para mais de 140 países, o que para Ruivo significa um atestado de competência. E completou dizendo que os primeiros containeres que chegaram ao Brasil foram inspecionados pelo MAPA em 21 parâmetros (pesticidas, fármacos, metais pesados, fosfato, microbiologia, etc.), e foram aprovados sem restrição. Lembrou também, que a Leardini assumiu sozinha todos os custos e tempo de espera pelo produto, abrindo assim as portas para as demais empresas  brasileiras interessadas no panga. Para Ruivo, “o que importa é que o consumidor brasileiro possa ir aos supermercados e peixarias, e encontre peixe de boa qualidade para consumir. Um peixe que chega vivo na indústria e com alto grau de frescor, que seja capaz de consolidar e ampliar o hábito de consumo em nosso país”. Para Ruivo somos, historicamente, fortes importadores de merluza, bacalhau, salmão, cação, kani, pez palo e sardinha, e “como o Brasil ainda não decolou nos volumes de aquicultura que possam fazer frente ao importado, e com custo competitivo, teremos de continuar trazendo pescado do exterior. Em poucos anos o Brasil poderá, com competência e preços atrativos, ir convencendo as empresas em comprar as espécies da aquicultura e ir substituindo pouco a pouco as importadas”, completou.

Ameaça?

Francisco Hiran, professor e produtor no Ceará, também em mensagem à Panorama-L, disse que durante o WAS 2009 no México, participando de uma palestra com produtores de tilápia mexicanos, ouviu reclamações sobre a entrada da tilápia eviscerada e congelada proveniente da China, por um preço de U$ 1.80/kg (menos de R$ 3,00/kg). Segundo os produtores mexicanos, em 2008, 50.000 toneladas de tilápia chinesa tinham entrado no território mexicano, inviabilizando a produção local. Para Hiran, a entrada do panga, e provavelmente da tilápia chinesa no Brasil, num futuro próximo, com certeza irá inviabilizar a produção aquícola nacional. Para ele, os aquicultores brasileiros, sem nenhum tipo de subsídio e com uma carga tributária altíssima, não terão a mínima chance de concorrer com os asiáticos.

A partir daí as discussões passaram a focar as medidas que supostamente deveriam ser tomadas. Mensagens falando que o panga seria um depósito de veneno e de toda a sorte de produtos químicos também foram postadas. Mas, a possível restrição sanitária decorrente da suposta falta de inocuidade do panga importado foi rebatida pelo Chefe da Divisão de Inspeção de Pescados e Derivados do MAPA, Lucio Kikuchi. Ele disse que, do ponto de vista sanitário, a Portaria 183, de 1998 e a Resolução 001, também de 1998, que estabelecem o reconhecimento do sistema de inspeção entre países, foram totalmente atendidas pelo Vietnã. Portanto, não há como impedir a entrada do pangasius sob esta ótica. Possíveis restrições poderiam ser feitas para a entrada de animais inteiros (com vísceras), uma vez que o sudeste asiático possui diversas doenças. Entretanto, o único rótulo aprovado é o de filé, ou seja, sem risco do ponto de vista de doenças para animais aquáticos, segundo o Departamento de Saúde Animal (DSA) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

As restrições econômicas também foram sugeridas, mas, como é do conhecimento de todos, as ações nesse sentido são demoradas e têm que partir de grupos econômicos organizados, o que não é o caso do setor aquícola nacional. Por outro lado, ainda que sofra taxas antidumping para entrar nos EUA, o panga vietnamita vem sendo cada vez mais comercializado no país, prova que ainda assim é economicamente interessante trazer o peixe da Ásia.

Ricardo Tsukamoto, da Bioconsult, lembrou que "a Comunidade Européia é grande consumidora de filé de pangasius, dando preferência a este peixe em relação à tilápia. Dessa forma, as questões trabalhistas e sanitárias do Vietnã já foram extensamente investigadas pelos países mais rigorosos do mundo (América do Norte e Europa), e se verificou que está tudo bem. Várias empresas japonesas vêm investindo há anos na aquicultura vietnamita, e a qualidade ali aplicada é similar à do Japão, para garantir que o produto seja encaminhado facilmente para aquele país", arrematou Tsukamoto.

O que se pode perceber das discussões, é que elas ainda estão muito longe de terminar. Para Álvaro Graeff, da Epagri de Caçador (SC), o momento é bom para refletir sobre o fato de que tínhamos os peixes brasileiros desde antigamente e nunca os valorizamos. “Bastou dizerem que a tilápia era isto e aquilo, e nós entramos de cabeça. Mas temos uns peixes chamados sububins, jundiás, pacus, pintado, tambaqui, pirarucu e cacharas, e não entramos ainda de cabeça. Por que?”, ele questiona.

Bem, o tempo vai se encarregar de dizer como será a aceitação do panga no mercado brasileiro. Mas um fato curioso aconteceu entre o dia 20 de outubro, quando a discussão começou na Lista da Panorama, e 3 de novembro, quando Osmar Tomazelli voltou ao supermercado Brasão: o preço do quilo do panga caiu de R$ 12,98 para R$ 8,99, como mostra a foto. As razões para isso? Bem, são ainda tantas as perguntas sem repostas, e essa será mais uma.


Saiba mais: Quem é assinante lê on-line
A Panorama da AQÜICULTURA sugere a leitura de artigo
relativo ao tema, publicado em edição anterior.

Pangasius vietnamita: A difícil trajetória de um peixe campeão de vendas
Edição 111 – janeiro/fevereiro – 2009