A piscicultura marinha no Brasil
Afinal, quais as espécies boas para cultivar?


Por:
Ronaldo O. Cavalli e Santiago Hamilton
Departamento de Pesca e Aqüicultura
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
e-mail: ronaldocavalli@gmail.com


Dentre os vários segmentos da aqüicultura mundial, dados da FAO indicam que o cultivo de peixes marinhos é um dos que tem apresentado maior crescimento, com taxas anuais de 12,5% no período de 1990-2000. No caso do Brasil, em que pese as excelentes condições naturais, abundância de recursos hídricos e presença de espécies de peixes com extraordinário potencial para a aqüicultura, a piscicultura marinha não tem participado na produção de pescado. As poucas tentativas de cultivo são pontuais e improvisadas, na maioria dos casos se resumindo a engorda de juvenis capturados no ambiente natural e cultivados de forma extensiva, porém com um volume de produção inexpressivo. Assim, sem medo de errar, podemos dizer que atualmente a piscicultura marinha não é uma atividade em escala comercial em nosso país, exceção feita a alguns poucos produtores de peixes ornamentais.

Mas nem sempre foi assim. O cultivo de peixes marinhos no Brasil provavelmente começou no século XVII, durante o governo holandês de Maurício de Nassau em Pernambuco, quando a atividade foi introduzida na região. Naquela época, robalos (ou camurins - Centropomus), tainhas ou curimãs (Mugil) e carapebas (Eugerres e Diapterus) eram cultivados extensivamente em viveiros de maré (ou “gambôas artificiaes”, como descrito por Rodolpho von Ihering em 1932). Segundo estimativas de outro pesquisador da época, Otto Schubart, na década de 30 o Estado de Pernambuco produzia 25 toneladas de peixes por ano em 280 viveiros, os quais totalizavam uma área de aproximadamente 43 hectares. A produtividade, extremamente variável, ficava entre 20 a 1.400 kg/ha.

Apesar deste início promissor, a piscicultura marinha não deslanchou como atividade produtora de alimentos de qualidade e geradora de emprego e renda. Hoje em dia, o cultivo de peixes marinhos tem se limitado quase que exclusivamente às instituições de pesquisa. Mesmo assim, quando pensamos em programas de pesquisa solidamente estabelecidos e que desenvolvam estudos sistemáticos em nosso país, concluímos que nos últimos anos somente o robalo-peva (Centropomus parallelus) e o linguado (Paralichthys orbignyanus) vêm recebendo a devida atenção, nesses dois casos, em instituições de pesquisa da Região Sul do Brasil. Felizmente, porém, outras espécies já foram e/ou vêm sendo estudadas, porém com menor intensidade. Dentre estas temos as tainhas (Mugil liza e Mugil platanus), os lutjanídeos (Lutjanus analis e L. synagris), a garoupa verdadeira (Epinephelus marginatus), o pampo (Trachinotus marginatus), o peixe-rei (Odonthestes argentinensis) e, mais recentemente, o beijupirá ou bijupirá (Rachycentron canadum).

Que peixe escolher?

A opção pelo cultivo de uma determinada espécie de peixe não é tarefa fácil. No caso do Brasil, porém, a escolha de espécies é facilitada pela enorme gama de espécies da fauna nativa com ótimo potencial para a aqüicultura. Além disso, estas espécies podem vir a ser cultivadas em uma também ampla variedade de condições ambientais e oceanográficas que o país apresenta. Mesmo assim, podemos concluir que toda e qualquer tentativa de se racionalizar sobre a seleção de espécies de peixes para o cultivo está sujeita a erros. Neste artigo descreveremos um exercício de seleção de espécies de peixes marinhos do litoral brasileiro com potencial para o cultivo que vem sendo desenvolvido pela equipe do Laboratório de Piscicultura Marinha da UFRPE, Recife, Pernambuco.

Em 1972, quando foi publicado o livro-texto “Aquaculture”, John Bardach e seus colegas já alertavam que as espécies a serem consideradas para a aqüicultura deveriam apresentar um rol mínimo de características a fim de aumentar as chances de sucesso no cultivo. Além de fatores óbvios, como tamanho, disponibilidade e valor nutritivo, eles apontavam mais quatro critérios: hábitos reprodutivos, as exigências de ovos e larvas, hábito alimentar e adaptação à densidade. Assim, em consonância com Bardach e colegas, neste exercício definimos que a seleção de espécies para o cultivo comercial em determinada região e sob certas condições deveria considerar uma série de características biológicas e zootécnicas, tais como sua potencialidade de cultivo, ou seja, ganho de peso, hábito alimentar (incluindo adaptação à alimentação artificial), resistência a doenças, facilidade e disponibilidade de tecnologia de produção de larvas e alevinos. Informações mercadológicas e econômicas também devem ser utilizadas como critério de seleção. Somente assim a avaliação do potencial das espécies poderá definir a rentabilidade de um sistema de piscicultura marinha, fornecendo subsídios para o eventual direcionamento de recursos públicos, humanos e financeiros para pesquisa e desenvolvimento tecnológico da atividade.

Baseando-se nestes princípios, três critérios de seleção foram aqui utilizados: mercado, potencial de crescimento e tecnologia de cultivo. Para o quesito “mercado”, foi considerada a aceitação de uma determinada espécie pelos consumidores e, principalmente, seu valor (preço) de mercado. Espécies com baixo valor não foram consideradas e, portanto, previamente eliminadas. Obviamente que esta é uma questão subjetiva e também sujeita às variações, uma vez que, só para citar um exemplo, existem grandes diferenças em termos de aceitação (e valor de mercado) de algumas espécies de peixes nas diferentes regiões do país. Para o quesito “potencial de crescimento”, foram analisadas as informações existentes na literatura para as espécies-alvo e, no caso de não haver informação fidedigna para alguma espécie, foram utilizados os dados de espécies pertencentes ao mesmo gênero. Finalmente, em termos de “tecnologia de cultivo”, mais uma vez recorremos à literatura e analisamos a existência de tecnologia já desenvolvida para cultivo da espécie-alvo. Neste caso, para as espécies que são cultivadas comercialmente, foram utilizados dados de produção (da espécie ou do gênero), enquanto que para aquelas que ainda não são cultivadas em nível comercial foram analisadas as publicações científicas das bases de dados do Scielo (www.scielo.br) e Web of Science (http://portal.isiknowledge.com/), ambas disponíveis através do portal da CAPES (www.periodicos.capes.gov.br).

A lista inicial de espécies pré-selecionadas (ou “Top Ten”) inclui exclusivamente peixes naturalmente encontrados no litoral brasileiro, sendo que a montagem desta lista inicial foi realizada de forma arbitrária. Foram levadas em consideração as espécies de peixes marinhos atualmente estudados por instituições brasileiras e de outros países, as sugestões de colegas de várias regiões do país e a própria experiência dos autores. Espécies de peixe ornamental não foram consideradas. As espécies inicialmente selecionadas incluem a tainha (Mugil liza e Mugil platanus), carapeba (Eugerres brasilianus), robalo/camurin (Centropomus parallelus e C. undecimalis), pargo-rosa (Pagrus pagrus), beijupirá (Rachycentron canadum), linguado (Paralichthys orbignyanus), cioba (Lutjanus analis), arabaiana/olhete (Seriola dumerili), garoupa verdadeira (Epinephelus marginatus) e dourado de mar (Coryphaena hippurus). O pampo (Trachinotus marginatus), mero (Epinephelus itajara), badejo (Mycteroperca bonaci) e a marimbá (Diplodus argenteus) também foram inicialmente considerados, mas não foram incluídos pela escassez de informações relacionadas à aqüicultura destas espécies.

Como critério de seleção entre as espécies desta lista inicial, cada uma recebeu uma pontuação, variando de 1 a 5, para cada um dos três quesitos acima apresentados. Assim, um peixe com altíssimo valor de mercado, por exemplo, a garoupa, recebeu nota máxima (“5”) neste quesito, enquanto outra espécie considerada menos valiosa receberia nota “1”. Os resultados deste exercício podem ser observados na tabela a seguir, a qual apresenta o resultado final na forma de um “ranking” das espécies consideradas mais atraentes para o cultivo em nosso país.

espécies consideradas mais atraentes para o cultivo em nosso país

De acordo com esta metodologia, o ranking teria o beijupirá em primeiro lugar, seguido pelo robalo em segundo. Empatados em terceiro, viriam a cioba, o linguado, o pargo-rosa e a garoupa. Num distante sétimo lugar, teríamos a arabaiana, enquanto o dourado e a tainha ficariam empatados na oitava posição. Em décimo lugar ficaria a carapeba.

E o ganhador é...

Dentre as espécies nativas com potencial para cultivo em nosso país, o beijupirá (R. canadum), também conhecido como bijupirá, cação de escama ou pirambiju, vem recebendo muita atenção nos últimos anos. Único membro da família Rachycentridae, trata-se de uma espécie de hábito natatório ativo, devido à ausência da vesícula gasosa, e comportamento migratório. A espécie é encontrada em águas tropicais e subtropicais de todos os continentes, entre as latitudes de 32ºN e 28ºS, com exceção do leste do Pacífico, distribuindo-se naturalmente na maior parte do litoral do Brasil.

Foto: Ronaldo Barradas e Santiago Hamilton - UFRPE/Aqualider Maricultura
bijupirá
Docilidade do bijupurá. Comendo na mão

De hábito alimentar predador, inclui na sua dieta peixes e crustáceos, embora eventualmente consuma moluscos. Estudo realizado na UFRPE sugere que os peixes ósseos são os seus principais itens alimentares na costa de Pernambuco, com baixíssima ocorrência de crustáceos, o que difere do registrado nos Estados Unidos. Os resultados deste estudo indicaram também que a ocorrência e a alimentação do beijupirá na costa pernambucana estão associadas à presença de recifes ao longo do litoral, os quais abrigam espécies residentes, de baixo deslocamento.
A produção de beijupirá pela pesca é relativamente pequena, representando apenas 0,23% (1.160 t) da produção da pesca marinha brasileira em 2005. Isso ocorre uma vez que não há uma pesca direcionada especificamente para a espécie, pois se trata de um peixe que raramente forma cardumes. Decorre disso que o beijupirá não é um peixe facilmente encontrado no mercado, o que implica na possível necessidade de investimentos na área de marketing como forma de difundir a inegável qualidade da sua carne, que é inclusive utilizada na culinária japonesa.

O grande interesse no desenvolvimento da aqüicultura desta espécie reside principalmente na sua altíssima taxa de crescimento. Sob condições normais de cultivo, em tanques-rede instalados em mar aberto, o beijupirá é capaz de alcançar um peso médio de 6 kg em apenas um ano de cultivo, e entre 8 e 10 kg em 16 meses. Além disso, o beijupirá apresenta uma série de outras características favoráveis, incluindo a facilidade para desovar em cativeiro, relativa tolerância às variações de salinidade, resposta positiva à vacinação, adaptabilidade ao confinamento e aceitação de dietas extrusadas.

Em termos de aqüicultura, Taiwan e China são os únicos países produtores que constam das estatísticas da FAO relativas a 2005. O cultivo do beijupirá em nível comercial teve início em Taiwan em 1995, quando apenas 3 t foram produzidas. Em 2004, cerca de 5.000 t foram produzidas naquele país. Na China, a produção em 2005 foi estimada em mais de 16.000 t. Além desses países, o beijupirá também vem sendo cultivado comercialmente no Vietnam, embora ainda não haja registros nas estatísticas da FAO. Existem também relatos sobre o seu cultivo nos Estados Unidos, Bahamas, Porto Rico, Belize, Panamá, México, Ilhas Reunião, Japão e Indonésia.

No Brasil, apesar do enorme interesse no cultivo de R. canadum, inclusive com iniciativas do setor privado nos estados de São Paulo, Bahia e Pernambuco, ainda são poucos os estudos científicos sobre esta espécie. Até o momento sabemos que, no ambiente natural, a espécie se desloca para o mar aberto para a reprodução, e que, em Pernambuco, a maior freqüência de fêmeas maduras ocorre de outubro a maio. Desovas fertilizadas de exemplares mantidos em cativeiro já foram obtidas na Bahia em 2006, e em Pernambuco e no Espírito Santo, em 2007. Até o momento, porém, as tentativas de cultivo de larvas em larga escala ainda não alcançaram o sucesso obtido em outros países.

De acordo com o SINAU - Sistema de Informações das Autorizações de Uso de Águas de Domínio da União para fins de Aqüicultura (http://200.198.202.145/seap/sinau_web/html2/index_intro.html), até 08 de fevereiro de 2007, cinco solicitações de cessão de águas públicas se encontram em tramitação na SEAP/PR especificamente para o cultivo de beijupirá, comprovando a relevância da espécie para o desenvolvimento da piscicultura marinha nacional.

Em termos de pesquisa, além da UFRPE, as equipes da Bahia Pesca, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB e Fundação Universidade Federal do Rio Grande - FURG também vêm pesquisando aspectos relacionados ao cultivo do beijupirá.

Robalo: vice-campeão com louvor!

O robalo-peva (C. parallelus) e o robalo-flecha (C. undecimalis) pertencem à família Centropomidae e vêm se consolidando como importantes alternativas para a piscicultura marinha nacional. Esses peixes distribuem-se na costa do Atlântico, desde a Carolina do Norte, EUA, até o Rio Mampituba, sul de Santa Catarina, embora juvenis sejam eventualmente observados nos estuários do Rio Grande do Sul. O robalo-peva é mais facilmente capturado na Região Sul do Brasil, enquanto no nordeste o flecha é mais abundante. A distribuição dessas espécies coincide de certa forma com a distribuição do seu principal habitat, os mangues. Segundo o IBAMA, 3.442 t de robalo foram capturados no Brasil em 2005. Bahia, Pará e Maranhão responderam por cerca de 80% desta captura.

Foto: Panorama da Aqüicultura
robalo flexa Centropomus undecimalis
Exemplar de Robalo Flexa (Centropomus undecimalis)

Além de serem peixes valorizados pela qualidade de sua carne e com altíssima demanda pela pesca esportiva, os robalos apresentam várias características de interesse para o cultivo, como boa taxa de crescimento e alta eurialinidade (tolerância à salinidade), estando presentes no mar, em águas continentais e em ambientes estuarinos, onde são encontrados em maior número. Por outro lado, os robalos são estenotérmicos, ou seja, são sensíveis às variações de temperatura, se restringindo às águas quentes (em torno de 24°C) das regiões tropicais e subtropicais das Américas.

O cultivo do robalo-peva vem sendo estudado no Brasil, principalmente na Universidade Federal de Santa Catarina, desde 1990. A tecnologia básica para a produção de juvenis desta espécie em larga escala já se encontra disponível, mas algumas áreas, como o desenvolvimento de sistemas de engorda, definição de exigências nutricionais e melhoramento genético, ainda merecem atenção para que o cultivo comercial se torne uma realidade. Uma limitação desta espécie seria o seu crescimento lento em relação ao flecha.

O robalo-flecha, por sua vez, é considerado uma espécie mais promissora para a piscicultura do que o peva. Além de ter uma faixa de distribuição mais ampla, e consequentemente ser mais conhecido, apresenta um crescimento mais acelerado. As principais dificuldades no cultivo de C. undecimalis se relacionam com a maturação em laboratório. Até o momento, sob condições de cativeiro, as fêmeas raramente produzem ovócitos vitelogênicos, o que impossibilita a indução hormonal da desova, enquanto a produção de esperma dos machos ainda é limitada. Em decorrência disso, a maior restrição para o cultivo em larga escala do robalo-flecha é a incapacidade de se produzir alevinos para atender a demanda. O desenvolvimento de estudos que permitam obter desovas do robalo-flecha e, por conseqüência, realizar estudos sobre a larvicultura, a partir das técnicas já desenvolvidas para o robalo-peva, nos parece o caminho mais curto para se alcançar o sucesso na produção de juvenis desta espécie.

Com relação à engorda, ainda há pouca informação sobre o crescimento em condições de cultivo, mas os poucos estudos disponíveis relatam resultados promissores em tanques escavados e em tanques-rede. Por outro lado, outro robalo, o barramundi (Lates calcarifer), vem sendo cultivado comercialmente no sudeste asiático, principalmente na Tailândia, Indonésia, Malásia e Taiwan. A produção mundial do barramundi é de cerca de 27.000 t. De qualquer forma, para que a aqüicultura do robalo-flecha venha a se tornar uma realidade em escala comercial, seria interessante avaliar diferentes sistemas de cultivo, principalmente tanques-redes em ambientes estuarinos.

Em vista da alta demanda pela pesca esportiva, outra possibilidade de utilização dos robalos seria através do repovoamento de ambientes naturais, o que inclusive já vem sendo testado em pequena escala com o robalo-peva no litoral do estado do Paraná. Segundo relatos de pescadores, tem se notado uma maior abundância de robalos após o início da liberação de juvenis criados em laboratório.

Medalha de bronze para a cioba, garoupa,
linguado e pargo-rosa

A cioba (L. analis) apresenta características bastante atraentes para ser cultivada nos mares brasileiros, tendo sido inclusive citada por vários colegas como uma das espécies de maior potencial para cultivo nas Américas. A cioba possui ampla distribuição, ocorrendo no Atlântico Ocidental, desde a costa da Nova Inglaterra até o sudeste do Brasil, incluindo as Bahamas e o Golfo do México. No Brasil, essa espécie ocorre em áreas da plataforma continental. O IBAMA estima que 3.199 t de cioba foram capturadas no Brasil em 2005.

Foto: Robert A. Patzner - FishBase
cioba L. analis
Cioba (L. analis) em seu ambiente natural

Há um grande interesse no desenvolvimento de técnicas para o cultivo dessa espécie, principalmente devido a sua capacidade de resposta à indução a desova, viabilidade da larvicultura e resistência ao manejo. Testes preliminares em tanques-rede realizados na Bahia e em São Paulo indicam que são peixes que suportam densidades de estocagem relativamente altas com bom ganho de peso e aceitam dietas artificiais. Além disso, por suas qualidades organolépticas, a cioba apresenta elevada demanda em mercados locais e externos. Embora já tenham sido realizados estudos sobre aspectos da biologia reprodutiva e reprodução de L. analis, em várias regiões do mundo ainda permanecem alguns entraves na obtenção de desovas em cativeiro. A produção de juvenis e a engorda em pequena escala já ocorre em Porto Rico e na Costa Rica, mas no Brasil os principais fatores limitantes para o cultivo desta espécie são a disponibilidade de juvenis produzidos em laboratório e a inexistência de uma ração comercial que atenda às exigências nutricionais da espécie.
A equipe do LABOMAR - Universidade Federal do Ceará vem trabalhando com L. analis e Lutjanus synagris, notadamente com estudos visando a obtenção de desovas em laboratório e a determinação de exigências nutricionais. Espera-se que informações básicas sobre estes aspectos, assim como de ecologia, biologia e parâmetros ambientais, tão necessárias para o desenvolvimento de técnicas de cultivo, sejam definidos a fim de estabelecer um protocolo de produção confiável.

A garoupa verdadeira (E. marginatus), membro da família Serranidae, é uma das espécies mais apreciadas pelos consumidores, o que se reflete no seu alto valor de mercado.

Foto: Eduardo G. Sanches
garoupa verdadeira Epinephelus marginatus
Garoupa verdadeira (Epinephelus marginatus)

Apresenta um crescimento relativamente alto e desperta um grande interesse nos praticantes de esportes subaquáticos. Trata-se de um peixe hermafrodita protogínico (nascem fêmeas e podem eventualmente tornar-se machos), um fato que dificulta, mas não impede, a sua reprodução em cativeiro. Habita o litoral rochoso, sendo encontrado em águas rasas até profundidades de mais de 200 metros. Sua distribuição é ampla, ocorrendo no litoral sudeste do Brasil, assim como no Mediterrâneo e no Atlântico leste. A biologia reprodutiva de E. marginatus foi estudada na costa de Santa Catarina, onde a maturação das gônadas ocorre na primavera e a desova no início do verão. O valor de mercado está entre os mais elevados. Em São Paulo, o preço médio do quilograma varia entre R$ 12,00 a R$ 15,00, mas em outras praças do país pode chegar a R$ 30,00/Kg. A pesca de “garoupas” no Brasil produziu pouco mais de mil toneladas em 2005, a maior parcela capturada no Pará.

O cultivo de serranídeos é uma realidade no sudeste asiático, onde Taiwan, Indonésia, Tailândia, Malásia e China são os principais produtores. Apesar de uma produção estimada em mais de 40.000 t, na sua maior parte por pequenos produtores em unidades familiares, os principais gargalos na sua produção são a baixa disponibilidade de juvenis produzidos em laboratório e o uso indiscriminado de rejeitos de pesca na alimentação. Como a tecnologia de produção de juvenis de serranídeos ainda é incipiente, as taxas de sobrevivência na larvicultura raramente situam-se acima de 10%. Em decorrência, estima-se que cerca de 90% dos empreendimentos de engorda dependam da coleta de juvenis selvagens.

No Brasil, a equipe do Instituto de Pesca-APTA-SAA, São Paulo, vem trabalhando em duas frentes: controle da reprodução e cultivos em tanques-rede de pequena escala. Como parte dos frutos deste trabalho, em 2006 esta equipe conseguiu criopreservar o sêmen da garoupa verdadeira, um verdadeiro avanço no controle da reprodução em cativeiro. Já em relação à engorda, apesar da dependência da captura de juvenis selvagens, os resultados são encorajadores. Após um ano de cultivo, exemplares de garoupa com peso inicial de 80-100 g e alimentados com rejeitos de pesca alcançaram de 1,0 a 1,2 Kg com conversão alimentar de 4:1.

O linguado (P. orbignyanus) distribui-se desde o Rio de Janeiro até Mar del Plata na Argentina. Em vista de sua distribuição, a pesca em águas brasileiras só ocorre nas regiões sudeste e sul. Em 2005, foram capturadas 2.813 t de várias espécies de “linguados”. Espécie de águas frias, P. orbignyanus habita ambientes rasos, com profundidades inferiores a 50m, sendo sua ocorrência geralmente associada a regiões estuarinas. Além de possuir um alto valor comercial, várias outras características estimulam o cultivo do linguado. Entre estas podem se destacar a tolerância a amplas faixas de temperatura e salinidade, a sobrevivência em águas ácidas e a elevadas concentrações de compostos nitrogenados.

Foto: Acervo Setor de Piscicultura, EMA, FURG
linguado
Reprodutor de linguado na Estação Marinha de Aquacultura, FURG


Vários outros estudos desenvolvidos na Estação Marinha de Aquacultura da FURG, RS, têm demonstrado a viabilidade da produção de juvenis em larga escala. A reprodução do linguado é obtida regularmente com o uso de reprodutores capturados no mar, mas já foram obtidas desovas naturais de reprodutores aclimatados ao cativeiro somente com o controle da temperatura e fotoperíodo, embora as desovas sejam normalmente obtidas com indução hormonal. Os estudos sobre a larvicultura permitiram o estabelecimento de um protocolo básico, o que tem possibilitado a produção de juvenis de forma rotineira com boas taxas de sobrevivência.

Até o momento, poucos estudos foram realizados com a engorda do linguado, a maioria sob condições de laboratório. A taxa de crescimento se reduz em torno de 10-15% na água doce em comparação com linguados criados em salinidades mais altas, mas a capacidade de sobreviver em água doce é muito importante, especialmente para o cultivo em estuários. A partir de juvenis com 3 g, linguados com peso médio de 150 a 250 g podem ser produzidos em um ano, sendo possível alcançar 500 g em dois anos de cultivo. Uma dificuldade encontrada no manejo do cultivo é o crescimento heterogêneo. Ao final de dois anos de cultivo foram observados indivíduos com 0,2 kg e 1,8 kg, ou seja, mais de 1000% de diferença de peso entre indivíduos de um mesmo lote.

Apesar do pouco tempo de estudo, as perspectivas para a produção comercial do linguado são ótimas. É necessário desenvolver estudos sobre nutrição e alimentação, principalmente aplicados à engorda, pois a disponibilidade de uma dieta balanceada para o linguado parece ser um dos grandes limitantes para o seu cultivo no Brasil.

Espécie exclusivamente marinha, o pargo-rosa (P. pagrus) distribui-se nas águas subtropicais da plataforma continental do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo. Tem excelente valor no mercado brasileiro, mas grande parcela de sua produção é exportada. A pesca brasileira produziu 2.167 t de pargo-rosa em 2005, sendo 90% capturado em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Foto: Acervo dos autores
pargo Pagrus pagrus
Exemplar de pargo (Pagrus pagrus)

Embora a biologia do pargo-rosa já venha sendo estudada há vários anos, não temos conhecimento de nenhum estudo sobre o cultivo desta espécie no Brasil. Entretanto, em outros países, notadamente nos países do Mediterrâneo, como Espanha e Grécia, o cultivo experimental já vem sendo realizado. Embora a reprodução em cativeiro e a conseqüente produção de juvenis do P. pagrus em larga escala ainda não esteja disponível, o desenvolvimento de estudos que permitam obter a sua desova e, na seqüência, a realização da larvicultura e engorda a partir das técnicas já desenvolvidas para o seu congênere, o pargo japonês (Pagrus major), espécie que é cultivada comercialmente no Japão e na Coréia do Sul, poderia ser adaptada ao nosso pargo-rosa.

A principal limitação para a aqüicultura do pargo-rosa no Brasil é a exigência por temperaturas abaixo dos 20°C, o que limitaria o seu cultivo às regiões sul e sudeste, principalmente nas zonas de ressurgência do Rio de Janeiro e em Santa Catarina. O sucesso do cultivo do pargo-rosa no Brasil, portanto, depende, entre vários outros fatores, da escolha criteriosa de áreas que respeitem esta exigência ambiental. Seu alto valor e forte demanda no mercado mundial podem tornar o cultivo do pargo-rosa em uma atividade atrativa.

Considerações finais

Os resultados deste exercício, que certamente são preliminares e espelham nada mais do que as opiniões dos autores, devem ser vistos com cautela. Ao generalizarmos sobre um tema tão delicado, como a seleção de espécies de peixe para cultivo no nosso país-continente, corremos o risco de cometer injustiças e de observarmos, nós mesmos, algumas distorções. Como exemplo, podemos citar o caso da tainha e da carapeba, que aqui se posicionaram em 8° e 10° lugares, respectivamente. São espécies que têm um bom valor de mercado em algumas regiões do país e que se alimentam na base da cadeia trófica, ou seja, altamente interessantes por possibilitar o cultivo com custos relativamente baixos, inclusive em sistemas de policultivo. Acreditamos que, se tivéssemos a capacidade de produzir juvenis destas espécies em larga escala, uma significativa parcela dos proprietários dos cerca de 16.000 ha de viveiros de camarão atualmente existentes no Brasil passariam a se interessar pela atividade.

Por outro lado, este exercício serve, dentre outras coisas, como um indicativo das espécies mais aptas para cultivo em termos geográficos. Para a região nordeste, por exemplo, o beijupirá, robalo-flecha, cioba e garoupa são fortes candidatos. Para o sudeste, talvez devamos apostar no robalo-flecha, garoupa, pargo-rosa e linguado, enquanto no sul do país as espécies indicadas seriam o linguado, os dois robalos e o pargo-rosa.

Independentemente das espécies a serem cultivadas, o desenvolvimento da piscicultura marinha brasileira deverá obrigatoriamente ocorrer a partir de uma sólida base científica, o que só será alcançado por meio da participação da massa crítica existente em nossas universidades e instituições de pesquisa. Não menos importante, porém, é a participação ativa dos governos federais e estaduais e da iniciativa privada, quer sejam grandes empresas ou grupos de pescadores artesanais interessados na atividade. Assim, é fundamental que sejam criados mecanismos para congregar e unir os esforços dos principais grupos de pesquisa e desenvolvimento que atuam ou venham a atuar nesta área do conhecimento, através da criação de uma rede de pesquisa e desenvolvimento em piscicultura marinha de caráter multi-institucional e multidisciplinar. Por meio de iniciativas deste calibre será possível a discussão e a futura implantação de um plano estratégico nacional de pesquisa e desenvolvimento visando desenvolver a piscicultura marinha de forma sustentável.