Ictiofitiríase: conhecendo a doença para elaborar estratégias de controle

Por:
Santiago Benites de Pádua1, santiagopadua@prevet.com.br
Roney Nogueira de Menezes Filho1, roneynogueira@prevet.com.br
José Dias Neto1, josedias@prevet.com.br
Gabriela Tomas Jerônimo3, gabriela@cca.ufsc.br
Márcia Mayumi Ishikawa2, marcia@cpao.embrapa.br
Maurício Laterça Martins3, mlaterca@cca.ufsc.br
1PREVET Sanidade Aquícola
2Embrapa Agropecuária Oeste, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA
3Laboratório AQUOS – Sanidade de Organismos Aquáticos, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

 

Em qualquer sistema produtivo, boas condições de sanidade animal são de fundamental importância quando se deseja obter uma produção eficiente e racional. No Brasil as pesquisas em sanidade aquícola e as soluções disponíveis ainda estão muito aquém quando comparadas à criação industrial dos animais terrestres, que possuem minucioso controle sanitário, com medidas profiláticas efetivas em cada etapa do ciclo; programas de vacinações; desinfecção rigorosa; protocolos terapêuticos reconhecidos; quarentena, etc. Essas medidas proporcionam maior biosseguridade ao sistema de produção e zelam pela estabilidade na produtividade, onde as perdas relacionadas com as enfermidades estão presentes, porém controladas.

Assim como os leitões, pintainhos e bezerros, os alevinos constituem-se a fase mais susceptível a várias doenças num ciclo produtivo, uma vez que neste período estes animais possuem o sistema imune, que é responsável pela defesa do organismo, ainda em desenvolvimento e capacitação, sendo pouco eficiente na resposta imunológica contra vários agentes etiológicos. No entanto, ainda nessa fase, os mamíferos possuem a vantagem de receberem uma proteção extra que vem do colostro materno nos primeiros momentos após o nascimento, o que não ocorre com os peixes. Portanto, os cuidados com a produção de alevinos devem ser redobrados, uma vez que a produção de alevinos saudáveis e seguros torna-se fundamental para o sucesso das demais etapas do ciclo de produção.

Várias doenças podem acometer os alevinos. Nesta edição abordaremos a ictiofitiríase, uma das principais doenças parasitárias que aflige a aquicultura mundial, e que no Brasil, é responsável por consideráveis perdas econômicas, principalmente na criação de bagres e peixes redondos.

 

Etiologia

A ictiofitiríase é uma doença parasitária ocasionada pelo protozoário ciliado denominado Ichthyophthirius multifiliis, popularmente conhecido como Ictio. A enfermidade é também conhecida como “doença dos pontos brancos”, devido aos sinais clínicos característicos. Na figura 1 pode-se observar o parasito em diferentes fases: trofonte maduro (Figura 1a), com formato circular e núcleo em forma de ferradura bastante característico cujo tamanho total do parasito pode chegar de 0,8 a 1,0 mm e trofonte imaturo com núcleo em forma de bastão (Figura 1b). Nesta fase, o parasito possui formato esférico ou oval e é envolvido por ciliatura disposta longitudinalmente (Figura 1c). Já os pequenos terontes (Figura 1d), estágio em que o parasito é infectante ao peixe, geralmente são piriformes ou ovais com dimensões de 30 x 50 µm e também possuem ciliatura disposta longitudinalmente.

Figura 1. Ichthyophthirius multifiliis (Ictio) observado em microscopia óptica. Trofonte maturo com núcleo em forma de ferradura (a); trofonte imaturo com núcleo em forma de bastão (b); trofonte impregnado com nitrato de prata exibindo suas estrias ciliares (c) e terontes (estágio infectante) observados em exame a fresco (d – acima) e impregnado pelo nitrato de prata (d – abaixo)

Figura 1. Ichthyophthirius multifiliis (Ictio) observado em microscopia óptica. Trofonte maturo com núcleo em forma de ferradura (a); trofonte imaturo com núcleo em forma de bastão (b); trofonte impregnado com nitrato de prata exibindo suas estrias ciliares (c) e terontes (estágio infectante) observados em exame a fresco (d – acima) e impregnado pelo nitrato de prata (d – abaixo)

Biologia do parasito

Este protozoário possui o ciclo um pouco complexo, quando comparado aos tricodinídeos, quilodonelídeos e Epistylis. Torna-se parasito obrigatório somente na fase de trofonte, portanto, o peixe é essencial para que este ciliado sobreviva e consiga completar seu ciclo de vida. Para isso, formas de vida livres denominadas terontes, possuem um aparato na região apical denominado perforatorium que é responsável pela penetração ativa na pele (tecido epitelial) por meio de ação mecânica. Assim, o teronte se aloja entre as camadas de células epiteliais acima da derme, e inicia sua transformação em trofonte.

Após a penetração do tegumento, que se dá principalmente na pele (alojando-se entre as escamas), nadadeiras, córnea, cavidade oral e tecido branquial, o teronte sofre algumas mudanças estruturais, especialmente no aparato bucal primitivo, que passa a ter tamanho suficiente para ingerir detritos celulares relativamente grandes, quando então passa a ser denominado trofonte (Dickerson e Dawe, 2006). Nessa fase, alimenta-se de secreções, fragmentos teciduais e células inflamatórias do hospedeiro, até completar seu desenvolvimento, que é variável de acordo com a temperatura da água. Temperaturas muito baixas (< 10º C) e muito altas (> 28°C) retardam o desenvolvimento deste ciliado.

Ciclo de vida

Figura 2. Ciclo de vida do Ichthyophthirius multifiliis. Todos os estágios desse organismo são ciliados. O teronte de natação livre penetra através do muco e invade o epitélio da pele, brânquias, entre outros. Ao entrar no hospedeiro ele se transforma em trofonte, que se alimenta e cresce até 800-1000 µm. O trofonte move-se ativamente dentro do epitélio. O parasito sai do peixe como tomonte maturo, que secreta um cisto de proteção e ocorrem inúmeras divisões para formar de 500-1000 células-filhas (tomitos). Os tomitos diferenciam-se em terontes infectantes, que perfuram a parede do cisto e entram na água com natação livre, em busca de um novo hospedeiro para completar o ciclo novamente. Ilustração modificada a partir de Dickerson (2012)

Figura 2. Ciclo de vida do Ichthyophthirius multifiliis. Todos os estágios desse organismo são ciliados. O teronte de natação livre penetra através do muco e invade o epitélio da pele, brânquias, entre outros. Ao entrar no hospedeiro ele se transforma em trofonte, que se alimenta e cresce até 800-1000 µm. O trofonte move-se ativamente dentro do epitélio. O parasito sai do peixe como tomonte maturo, que secreta um cisto de proteção e ocorrem inúmeras divisões para formar de 500-1000 células-filhas (tomitos). Os tomitos diferenciam-se em terontes infectantes, que perfuram a parede do cisto e entram na água com natação livre, em busca de um novo hospedeiro para completar o ciclo novamente. Ilustração modificada a partir de Dickerson (2012)

O ciclo de vida do ictio é direto, ou seja, para completá-lo é necessário apenas um hospedeiro. Três fases distintas podem ser observadas (Figura 2), sendo elas:

Teronte: forma de pequenas dimensões (30 x 50 µm), com natação aquática livre, sendo o estágio infectante ao hospedeiro.

Trofonte: estágio em que realiza o parasitismo no epitélio do peixe, podendo atingir 800 a 1000 µm e move-se ativamente.

Tomonte: forma livre que possui um cisto de proteção. Fixa-se em plantas aquáticas ou bordas dos viveiros em substratos inertes. Realiza inúmeras divisões e formam entre 500 a 1000 células-filhas, denominadas tomitos, que por sua vez diferenciam-se em terontes infectantes para ganhar o ambiente aquático.

Outras formas reprodutivas, como a conjugação entre terontes e fissão binária de trofontes podem ocorrer. No entanto, esta última ainda não foi elucidada completamente, mas pesquisadores do APTA/SAA de São Paulo têm registrado essa modalidade de fissão binária (Figura 3).

Figura 3. Trofontes de ictio em estágio final da fissão binária (setas) observado em exame a fresco. (Foto gentilmente cedida por Fabiana Garcia)

Figura 3. Trofontes de ictio em estágio final da fissão binária (setas) observado em exame a fresco. (Foto gentilmente cedida por Fabiana Garcia)

Transmissão

A principal forma de transmissão é a horizontal, na qual um peixe parasitado passa a atuar como fonte de infestação para o restante do lote. Neste elo, a fase de teronte é a responsável pela dispersão no ambiente aquático em busca de novos hospedeiros. Portanto, a água de cultivo atua como veículo dessas formas infectantes, bem como instrumentos utilizados na rotina da piscicultura, tais como peneiras, puçás, redes de arrasto, entre outros objetos. Atenção especial deve ser dada às propriedades que descarregam indiscriminadamente a água de transporte dos peixes recém-chegados diretamente nos viveiros de criação, pois essa água atua como importante meio de transmissão, não somente de protozoários, mas também de bactérias, fungos e vírus potencialmente patogênicos aos peixes.

Sinais clínicos

O principal sinal clínico da ictiofitiríase é a presença de inúmeros pontos brancos situados em toda superfície corpórea dos peixes parasitados, incluindo pele, nadadeiras, córnea, cavidade bucal e brânquias (Figura 4). Além disso, é comum observar os peixes exibindo movimentos grosseiros de fricção contra as paredes, fundo ou telas dos viveiros ou tanques rede, a ponto de turvar a água em criações de viveiro escavado. Tal fato ocorre devido à ação irritante determinada pela movimentação do ciliado, possivelmente ocasionando prurido.

 

Figura 4. Sinais clínicos da ictiofitiríase em surubim híbrido. Pontos brancos no tegumento e nadadeiras (a) córnea (b) e lamelas branquiais (c), além de alterações na pele após a saída do parasito (d)

Figura 4. Sinais clínicos da ictiofitiríase em surubim híbrido. Pontos brancos no tegumento e nadadeiras (a) córnea (b) e lamelas branquiais (c), além de alterações na pele após a saída do parasito (d)

Com o agravamento da condição clínica dos peixes, é possível observar peixes apáticos, com natação a esmo, errática e sem vigor (Figura 5), além de anorexia, mudança da coloração da pele, aumento da produção de muco, dificuldade respiratória com aumento dos batimentos operculares e, até mesmo, boquejamento na superfície da água ou entrada de água dos viveiros (Figura 5b) em horários não usuais.

Figura 5. Surubim híbrido com ictiofitiríase exibindo apatia, natação errática sobre a superfície da água com boquejamento (a). Alevinos de jundiá exibindo inúmeros pontos brancos sobre a pele (b – foto gentilmente cedida por Giselle Mari Speck)

Figura 5. Surubim híbrido com ictiofitiríase exibindo apatia, natação errática sobre a superfície da água com boquejamento (a). Alevinos de jundiá exibindo inúmeros pontos brancos sobre a pele (b – foto gentilmente cedida por Giselle Mari Speck)

Patogenia

A ictiofitiríase é uma doença agressiva aos peixes e sua patogenia está relacionada à penetração dos terontes no epitélio, com desenvolvimento subsequente dos trofontes. Nesta fase, o parasito ingere as células do hospedeiro, incluindo debris celulares do próprio epitélio, além de células inflamatórias que migram para o foco de agressão ou até mesmo células sanguíneas, que extravasam a partir da ruptura de capilares sanguíneos branquiais. Além disso, ocorre uma resposta do organismo, por meio do aumento do número de células epiteliais (hiperplasia epitelial), além de hiperplasia das células produtoras de muco. O conjunto: parasito + hiperplasia epitelial + infiltrado inflamatório composto por leucócitos e fluido do hospedeiro, são responsáveis pela formação de pontos brancos nos peixes doentes, uma característica dessa doença.

As lesões no tecido branquial são as mais preocupantes, pois se trata de um órgão sensível a agressões. Infestações branquiais maciças induzem a severa hiperplasia epitelial, bem como hiperplasia das células produtoras de muco, com infiltrado inflamatório composto por granulócitos e células mononucleares (responsáveis pela defesa do organismo), que resultam em fusão das lamelas secundárias (Figura 6) e impermeabilização do epitélio branquial, responsável pelas trocas gasosas, equilíbrio osmorregulatório e ácido-básico, podendo causar asfixia e acúmulo de compostos tóxicos no sangue, como a amônia. Situações mais graves podem ser observadas nas zonas de necrose (morte tecidual) na brânquia e pele.

Figura 6. Cortes histológicos do tecido branquial do híbrido patinga infestada por Ichthyophthirius multifiliis (coloração H&E). Notar a presença de inúmeros parasitos sob o epitélio branquial (a-b) exibindo hiperplasia epitelial, fusão das lamelas secundárias, infiltrado inflamatório, zonas hemorrágicas e necróticas. Em adição, pode-se observar detalhes do parasito em maior aumento (c), tais como macronúcleo em forma de ferradura (MA), presença de debris celulares dentro do protozoário (DC) e tecido epitelial da lamela branquial do hospedeiro (EB). No exame a fresco das brânquias, também podem ser observadas algumas dessas alterações (d)

Figura 6. Cortes histológicos do tecido branquial do híbrido patinga infestada por Ichthyophthirius multifiliis (coloração H&E). Notar a presença de inúmeros parasitos sob o epitélio branquial (a-b) exibindo hiperplasia epitelial, fusão das lamelas secundárias, infiltrado inflamatório, zonas hemorrágicas e necróticas.
Em adição, pode-se observar detalhes do parasito em maior aumento (c), tais como macronúcleo em forma de ferradura (MA), presença de debris celulares dentro do protozoário (DC) e tecido epitelial da lamela branquial do hospedeiro (EB). No exame a fresco das brânquias, também podem ser observadas algumas dessas alterações (d)

Lesões adicionais podem ocorrer quando os peixes friccionam o corpo em objetos presentes nos viveiros, na tentativa de livrar-se do parasito ou simplesmente em função de possível prurido, causado pela ação irritante do protozoário. Além disso, uma das principais lesões determinadas no desenvolvimento da ictiofitiríase ocorre quando o ciliado atinge a forma madura, rompendo o epitélio para retornar ao ambiente aquático e se transformar em tomonte (Figura 2). Neste processo, ocorre a formação de inúmeras úlceras sobre a pele (Figura 7) e brânquias dos peixes, sendo estas lesões utilizadas como rota de entrada de patógenos secundários, oportunistas à condição de debilidade do hospedeiro frente à ictiofitiríase. Entre os principais agentes bacterianos oportunistas que somam prejuízos junto à ictiofitiríase, temos Edwardsiella ictaluri que pode ser transmitida por este protozoário (Xu et al., 2012a) e também Aeromonas hydrophila que aumenta a mortalidade durante a infestações por ictio (Xu et al., 2012b).

Figura 7. Alterações histológicas causadas pela infestação por Ichthyophthirius multifiliis em alevinos de cachara. Parasito sob o epitélio de alevino de cachara exibindo núcleo em forma de ferradura (a – seta contínua) e no tecido adjacente pode-se observar proliferação das células de muco (a – setas pontilhadas). Na figura 7b pode-se observar ulceração no local onde se alojou o protozoário após sua saída para o ambiente.Coloração H&E Diagnóstico

Figura 7. Alterações histológicas causadas pela infestação por Ichthyophthirius multifiliis em alevinos de cachara. Parasito sob o epitélio de alevino de cachara exibindo núcleo em forma de ferradura (a – seta contínua) e no tecido adjacente pode-se observar proliferação das células de muco (a – setas pontilhadas). Na figura 7b pode-se observar ulceração no local onde se alojou o protozoário após sua saída para o ambiente.Coloração H&E Diagnóstico

O diagnóstico da ictiofitiríase é realizado de forma simples e rápida, a partir do raspado, tanto da pele quanto das brânquias, e pesquisa pelo parasito em microscópio óptico. A partir desta análise é possível observar o protozoário com o aumento de 40 vezes (objetiva de 4x), exibindo movimento rotativo, além da coloração escurecida do corpo e um macronúcleo mais claro, em forma de ferradura, apenas presente nos organismos adultos. Formas imaturas também são observadas, tais como trofontes com núcleo em forma de bastão e terontes piriformes (Figura 8). Não recomendamos o diagnóstico visual, a partir da observação de pontos brancos na superfície do peixe a olho nu, pois é passível de erros grosseiros.

Figura 8. Ictio em diferentes fases de desenvolvimento observado em brânquia de tilápia do Nilo (a – foto gentilmente cedida por Pamela Souza de Pietro), além de terontes, trofontes imaturos e maduros diagnosticados a partir de raspado cutâneo de pacu (b)

Figura 8. Ictio em diferentes fases de desenvolvimento observado em brânquia de tilápia do Nilo (a – foto gentilmente cedida por Pamela Souza de Pietro), além de terontes, trofontes imaturos e maduros diagnosticados a partir de raspado cutâneo de pacu (b)

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial da ictiofitiríase deve ser realizado cautelosamente, principalmente na infestação pelo dinoflagelado Piscinoodinium pillulare. Este parasito possui tamanho, coloração e formato semelhantes ao ictio, mas não possui movimentação alguma, pois é desprovido de ciliatura. Além disso, P. pillulare possui núcleo circular, e não em formato de ferradura (Figura 9). Portanto, o diagnóstico correto e preciso deve ser realizado por um profissional gabaritado e com experiência.

Figura 9. Piscinoodinium pillulare diagnosticado em brânquias de juvenil de piauçu Perspectivas da elaboração de uma vacina comercial

Figura 9. Piscinoodinium pillulare diagnosticado em brânquias de juvenil de piauçu Perspectivas da elaboração de uma vacina comercial

A utilização de vacinas para enfermidades bacterianas e virais em peixes já é uma realidade em vários países, sendo recente no Brasil. Entretanto, vale ressaltar que pesquisadores já se esforçam em desenvolver uma vacina específica para a ictiofítiríase.

Estudos com o catfish revelam que mesmo quando vacinados, estes peixes são severamente afetados pela baixa temperatura da água (15o C), onde não apresentaram anticorpos e sofreram altas mortalidades após o desafio pelo parasito. Já em temperaturas igual ou superior a 25o C, os catfish obtiveram uma resposta imunológica superior e melhora nos índices de sobrevivência (Martins et al. 2011). Como o ictio possui maior disseminação em baixas temperaturas no Brasil, é preciso que se avalie adaptações às condições de vacinação, pois a temperatura da água afeta significativamente a eficácia da imunização contra o ictio. Outra observação importante é que os peixes maiores são mais resistentes contra esse protozoário ciliado, sendo que a imunização eficaz depende da via de aplicação, onde a injeção intraperitoneal tem obtido proteção mais efetiva.

A vacina é uma necessidade no mercado nacional e mundial, uma vez que o combate à ictiofitiríase é pouco eficaz com a utilização de banhos terapêuticos, principalmente quando o problema é diagnosticado tardiamente. No entanto, esbarram na dificuldade de se produzir antígenos em larga escala pelos métodos tradicionais, uma vez que os trofontes são parasitos obrigatórios e não se desenvolvem em meios de culturas convencionais, utilizados em condições laboratoriais. Uma alternativa é a produção de vacinas a partir da utilização da tecnologia do DNA recombinante, na qual são inseridos genes que codificam antígenos de interesse em outros microorganismos, cujo cultivo laboratorial está dominado (por exemplo: Tetrahymena thermophila), mas essa tecnologia não está disponível ao campo, pois se encontra em fase de pesquisas.
Recomendações como medidas de controle e prevenção

O tratamento contra a ictiofitiríase não é eficaz em ambientes de criação, uma vez que os parasitos localizados sob o epitélio do hospedeiro e aqueles protegidos dentro do cisto de proteção secretado pelo tomonte não são atingidos pelos fármacos administrados. Portanto, a única forma susceptível aos banhos convencionais é o estágio de teronte, que é a forma de natação livre que infecta os peixes. Em ambientes cuja temperatura pode ser controlada, o recomendado é elevar a temperatura acima de 30º C, desde que a espécie de peixe tolere tal condição. Assim, pode-se eliminar as formas infectantes já que normalmente possuem baixa tolerância a essas temperaturas. No entanto, existem relatos de formas resistentes a temperaturas de 34º C (Bauer e Iunchis, 2001).

Para evitar surtos de mortalidade provocados por este parasito, bem como de agentes patogênicos secundários, é necessário efetivar uma série de medidas profiláticas que diminuem o risco da entrada e dispersão do parasito em todo o sistema de criação. Além disso, devemos sempre nos preocupar com a água que sai deste sistema, devendo estar livres de formas infectantes, uma vez que isso representa riscos à população de peixes do ambiente natural, bem como de possíveis pisciculturas que captam água do mesmo corpo de descarga. A seguir, são listadas algumas medidas que aumentam a biosseguridade do local de produção, sendo passíveis de aplicação principalmente em berçários:

- Utilizar filtros biológicos, com o emprego de macrófitas aquáticas (wetlands) na água de abastecimento, bem como nos efluentes, com intuito de promover uma limpeza natural da água de cultivo. A utilização de filtros mecânicos de baixa micragem, equipados com lâmpadas de ultravioleta são importantes, uma vez que as plantas aquáticas podem atuar como substrato para manutenção da fase de tomonte, que é removido pelos filtros mecânicos e ou luz UV.

- Adotar práticas criteriosas de desinfecção de instrumentos utilizados na rotina da piscicultura, além de antissepsia da mão de funcionários que entram em contato com os animais de cultivo.

- O controle de pessoas e veículos visitantes na piscicultura também é fundamental, pois podem carrear novas doenças ao sistema de produção.

- Utilizar quarentenas, com acompanhamento assíduo do recebimento de novos peixes na propriedade, sempre acompanhado de um laudo que ateste as condições sanitárias dos animais. Além disso, é fundamental a confirmação deste diagnóstico ao longo de algumas semanas, uma vez que pode ser o período necessário para a manifestação dos sinais de doenças até então subclínicas.

- Realizar periodicamente o diagnóstico do plantel, a partir de uma amostragem de peixes para monitorar as condições higiênico-sanitárias de toda a propriedade.

- Realizar um monitoramento detalhado das condições de qualidade da água.

Para obter a efetividade destas medidas é preciso que toda a cadeia, que de alguma forma trabalha na prática com o peixe vivo, adote essas práticas na rotina. No entanto, as pisciculturas produtoras de alevinos devem se atentar a essas informações, uma vez que a produção de alevinos saudáveis e livres de parasitos patogênicos é um diferencial no mercado, sendo essencial para o sucesso nas demais fases.

Agradecimentos
Os autores agradecem ao Projeto Aquabrasil/Embrapa pelo apoio financeiro.

 


Referências Bibliográficas:

CEPAL/ FAO/ IICA (2011). Perpectivas de la Agricultura
y del Desarollo Rural em las Americas: uma mirada hacia América Latina y el Caribe, 2011-2012. San José, Costa Rica, 2011. 182p.

FAO (2011). Fishery and Aquaculture Statistics. FAO
Yearbook, 2009. FAO Fisheries Department. Food and Agriculture Organization, Rome, 2011.81p.

FAO (2010). The State of World Fisheries and
Aquaculture 2010. FAO Fisheries Department. Food and Agriculture Organization, Rome, 2010. 197p.

INFOPESCA (2012). 32ª Conferência Regional da FAO
Buenos Aires, Argentina, 26 a 30 de março de 2012. Comunicação oral por Roland Wiefels (Diretor da INFOPESCA).

 

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